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Sex, 01 de Março 2019 - 17:57

Após polêmica sobre Hino, alunos confrontam MEC: 45% das escolas nem sequer têm biblioteca

Por: O Globo - 28.02

 
 
Problemas reais batem à porta do ministro Vélez, que, após dois meses de gestão, não mostra metas claras para pasta; muito criticado, ele desistiu de pedir que estudantes sejam filmados
 
O Globo
A carta do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, recomendando, na última segunda-feira, que as escolas enviassem vídeos de alunos perfilados durante a execução do Hino Nacional, teve efeito inusitado. E acabou escancarando para o novo frequentador da Esplanada dos Ministérios a realidade das instituições de ensino brasileiras. Em reação à orientação, estudantes de todo país começaram a se organizar para enviar a Brasília gravações revelando mazelas cotidianas, da estrutura precária dos colégios aos baixos salários dos professores.
 
Depois de toda a polêmica, em explicação ao Ministério Público Federal (MPF), o MEC afirmou, na noite de quarta-feira, dia 27, que remeterá novo ofício às escolas, desta vez desistindo do pedido inicial "por questões técnicas e de segurança".
 
42% dos colégios sem banda larga
A insatisfação dos alunos é revelada em matizes claras nos dados compilados pelo próprio governo: quase 45% das escolas de ensino fundamental não têm biblioteca, 42% não contam com banda larga. Cerca de 4% nem sequer possuem banheiros, segundo números do Censo Escolar 2018. Nas escolas de ensino médio, a situação é um pouco melhor.
 
Presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Pedro Gorki lançou a campanha #MinhaEscolaDeVerdade, que incentiva alunos e professores a filmarem as condições degradantes de seus colégios.
 
— Há um sucateamento crescente da rede pública. Faltam quadras, bibliotecas, salários— critica. — Diante da falta de recursos, os docentes levam papel higiênico para as escolas.
 
No Ciep Aarão Steinbruch, em Duque de Caxias, uma aluna conta que os professores fizeram vaquinha para a reforma dos banheiros:
 
— Tudo bem cantar o Hino, mas os problemas precisam ser resolvidos. Não temos bebedouro adequado, levamos água de casa.
 
Embora escolas estaduais e municipais não sejam atribuição direta do MEC, espera-se do órgão a fomentação de políticas públicas que atendam a essas demandas, assim como o desenvolvimento de projetos de apoio.
 
Questões urgentes negligenciadas
Após quase sessenta dias à frente do MEC, a crítica central de especialistas ao estilo Vélez é a de que, até o momento, não se priorizaram questões urgentes da educação brasileira. O ministro posiciona-se na linha de frente da batalha contra o que qualifica como "doutrinação ideológica" nas salas de aula mas não detalhou, por exemplo, projetos para a alfabetização (meta apresentada como prioritária para os 100 dias de governo).
 
— Apareceram estratégias pontuais de pouco alcance, sem consequência imediata para aumentar o processo de aprendizagem dos alunos, como a sugerida na carta. Mas as prioridades deveriam ser a valorização dos professores, evasão escolar, distorção idade-série, alfabetização — diz Anna Altenfelder, presidente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
 
Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, recebe diagnósticos anuais de 50 sindicatos de professores e funcionários, onde são apontados fatores que dificultam o trabalho nos colégios.
 
— Há um número excessivo de contratos temporários. Em um colégio em Pernambuco uma turma de ensino médio teve quatro professores de matemática em um ano. Não há vínculo entre aluno e mestre.
 
Érica Lucas, mãe de duas crianças que estudam na Escola Municipal Guilherme da Silveira, na Vila Kennedy, dá outro recado a Vélez:
 
— Vale muito mais ter material e uma sala de aula decente do que cantar o Hino Nacional — diz ela, que vê a escola dos filhos alagar nos dias de chuva. — O Hino não vai trazer livro, uniforme, educação.
 
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