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Sáb, 04 de Setembro 2021 - 17:57

A VOLTA DE BOLSODORIA

No programa Roda Viva do último dia 23 de agosto, o governador de São Paulo João Doria perdeu a paciência quando os entrevistadores lhe perguntaram sobre o slogan ?Bolsodoria?, que animou sua campanha ao governo em 2018.

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No programa Roda Viva do último dia 23 de agosto, o governador de São Paulo João Doria perdeu a paciência quando os entrevistadores lhe perguntaram sobre o  slogan “Bolsodoria”, que animou sua campanha ao governo em 2018.
 
A adesão de Doria ao bolsonarismo foi testada algumas vezes durante sua participação no programa. Num desses testes, perguntaram ao governador se ele se arrependia de ter mandado recolher 340 mil apostilas de alunos do 8º ano do ensino fundamental da rede estadual em setembro de 2019. À época, Doria alegou que o material de Ciências da Natureza – sobre gravidez na adolescência e aspectos socioafetivos da sexualidade – fazia apologia à “ideologia de gênero”.
 
A resposta de Doria foi categórica: “A recomendação foi do secretário de educação Rossieli Soares, e nós seguimos. Não há nenhum arrependimento sobre isso”. A reação repercutiu na imprensa, pois se esperava dele – que minutos antes declarara arrependimento pela dobradinha Bolsodoria em 2018 – que também tivesse repensado a decisão de interditar debates sobre gênero e sexualidade nas escolas, cuja reversão judicial obrigou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) a devolver os materiais aos estudantes.
 
Apesar da firmeza na resposta, o governador tomou o cuidado de atribuir a censura escolar a uma recomendação de seu secretário da educação. Assim, contradisse a própria justificativa quando do recolhimento dos materiais, em 03 de setembro de 2019: “fui informado sobre a existência dessa cartilha. Entrei em contato com o secretário Rossieli Soares, que se surpreendeu com o fato. Pedi que verificasse. Ele retornou dizendo que sim. Eu determinei que fossem recolhidas todas as apostilas (…)”. Na entrevista ao Roda Viva, Doria transferiu a fatura da decisão ilegal a Rossieli, mas manteve a posição de que o material de Ciências da Natureza (desenvolvido por especialistas da
própria rede estadual) era inadequado.
 
A derrota na Justiça e os acontecimentos dos últimos dois anos parecem não ter ensinado a João Doria o valor da autonomia pedagógica e o sentido mais profundo da urgência por debates sobre gênero e sexualidade nas escolas.
 
Camuflados, o autoritarismo e a arrogância do governador aguardavam o momento propício emergir das profundezas. O não arrependimento manifestado por Doria, com efeito, insinua que a “terceira via” que ele crê corporificar seja o destino do voto ultraconservador desiludido com Bolsonaro.
 
Paradoxalmente, o aceno reacionário do governador de São Paulo desilude a fração mais liberal do eleitorado de direita que porventura tenha acreditado na ruptura de Doria com o bolsonarismo. Fração pequena, é verdade – como dão a ver as pesquisas de intenção de voto que apresentam João Doria com números pífios em comparação a Bolsonaro e, sobretudo, a Lula.
 
Nos últimos dois anos, João fez o que pôde para se dissociar de Jair. A derrota perante a Justiça e a opinião pública no caso das apostilas foi um dos marcos da espalhafatosa cisão entre “Bolso” e “Doria” no último trimestre de 2019.
 
Meses depois, a tragédia pandêmica foi a tempestade perfeita que permitiu a João reverter a imagem pública do governador que cortou verbas de pesquisa para aquele que lutou pela vacina contra os negacionistas do governo federal. Bolsonaro é “autoritário”, “facínora”, “genocida” –, vociferou o mesmo governador que, quando candidato, havia vociferado que a polícia de São Paulo iria “atirar para matar” a partir do primeiro dia de seu governo.
 
A heroica redenção pela ciência tinha tudo para consolidar Doria como um dos maiores cases de sucesso de empresários na política nacional, cacifando-o ao tão sonhado gabinete no Palácio do Planalto. O problema é que, em João Doria, tudo é fabricado: a amabilidade, a atenção às palavras dos outros, o espírito público, o compromisso com os vulneráveis. Faltando pouco mais de um ano para as eleições, João está descobrindo que as estratégias propagandísticas largamente utilizadas em seu estado não são eficazes em outras partes do país. A falsidade transbordante do governador de São Paulo, indicam as pesquisas, não passa batida ao eleitorado.
 
Doria está ciente de que, no ano que vem, está arriscado a trocar o Palácio dos Bandeirantes (no qual poderia estender sua permanência) por uma derrota acachapante no primeiro turno da eleição presidencial. Não sendo possível retirar votos de Lula, resta ao governador pastorear o gado bolsonarista em dispersão. Premido pelas circunstâncias, ele volta a esbanjar sinceridade para dialogar com os setores mais retrógrados do eleitorado. Este seria, na visão de algumas pessoas, o oportunístico (e aguardado) retorno de Bolsodoria.
 
A volta dos que não foram
 
Habituado a controlar suas interações com jornalistas, o governador de São Paulo portou-se de forma bem menos amigável na bancada do Roda Viva do que nas coletivas que entretém semanalmente no Palácio dos Bandeirantes.
 
Nestas, ele chama os jornalistas pelo nome, tece comentários amenos e explora largamente a dicotomia do governador vacinador versus o presidente negacionista. No programa da TV Cultura, porém, foi deselegante, interrompeu os entrevistadores e mudou de assunto diversas vezes.
 
O retorno do autoritário Bolsodoria, contudo, não é propriamente um “regresso”. Embora sumido do proscênio midiático nos últimos tempos, ele foi presença constante numa das áreas mais vitais – e conflitivas – do governo estadual: a educação. Enquanto João Doria exaltava a ciência e maldizia os negacionistas para animar os telejornais noturnos, a Secretaria da Educação do seu governo sonegava a pesquisadores e jornalistas o acesso a dados da Covid-19 nas escolas e manipulava informações para criar uma falsa sensação de segurança na população.
 
Via de regra, o jornalismo noticioso se interessa pouco pelas pautas educacionais mais complexa, com algumas notáveis exceções. Entre tantas matérias ligeiras, panorâmicas ou vergonhosamente declaratórias, não espanta que o negacionismo do governo de São Paulo permaneça nas entrelinhas do noticiário ou, quando muito, seja explicitado em artigos de opinião de alcance limitado. De todo modo, quem acompanha com alguma atenção a pauta educacional estadual é capaz de perceber que Bolsodoria, na verdade, nunca se foi.
 
Vejamos, por exemplo, a recente dissolução do Centro de Contingência do Coronavírus, rebaixado por João Doria a um minguado Comitê com sete membros (antes eram 21). A medida veio na esteira da reabertura total autorizada pelo governo paulista. Constrangido pela falta de consenso entre os especialistas – muitos deles apreensivos com o avanço da variante delta do coronavírus no estado – Doria achou por bem extinguir o Centro de Contingência, ainda que a contingência sanitária não tenha se extinguido. Os especialistas que faziam parte do grupo não se surpreenderam com a decisão do governador, já que as recomendações do Centro de Contingência foram contrariadas por Doria em outros momentos.
 
A operação de desqualificar especialistas discordantes também é prática comum na Seduc-SP, que no ano passado criou sua própria comissão de médicos favoráveis à retomada das atividades escolares presenciais para desautorizar os especialistas da Secretaria da Saúde, que defendiam maior cautela na reabertura (como o próprio secretário Jean Gorinchteyn).
 
De maneira indireta, a Seduc-SP também detratou os críticos do governo por intermédio do grupo negacionista Escolas Abertas, que emprega táticas das milícias digitais bolsonaristas (à la Escola Sem Partido) para atacar professores e criar um ambiente de desinformação sobre a segurança sanitária nas escolas. Além dos sindicatos, alvos preferenciais do “movimento”, o Escolas Abertas já mirou em autoridades que discordaram das decisões de Doria e Rossieli relacionadas à reabertura das escolas, como o falecido prefeito Bruno Covas e o secretário estadual da saúde, que em março de 2021 manifestou publicamente as suas reservas a respeito da reabertura incondicional pretendida pela Seduc-SP.
 
E se, até aqui, as coisas já parecem bastante ruins, veremos que o bolsodorismo na educação paulista vai muito além do negacionismo envernizado e de táticas terceirizadas de guerrilha digital.
 
Bolsodorismo em ação
 
Durante a pandemia, o governo Doria deixou de investir em reformas estruturais que deveriam melhorar a ventilação nos prédios escolares, assim como atrasou em quase um ano a implantação de políticas para garantir o acesso de estudantes ao ensino remoto. A baixa execução orçamentária e o descompromisso com a melhoria da conectividade aproximam, pelo lado da inação, a Seduc-SP de Rossieli Soares e o MEC de Milton Ribeiro.
 
Já pelo lado da ação, a Seduc-SP alterou a metodologia de atribuição do status de “não comparecimento” aos estudantes sem presença ou notas registradas no sistema. Assim, o governo Doria excluiu milhares de estudantes das escolas estaduais, tratando como abandono a falta de acesso pela qual ele próprio é responsável. A megaoperação de cancelamento de matrículas foi feita à revelia de famílias e direções escolares, e, como provável efeito colateral, colocará os atores escolares uns contra os outros, visto que, antes da mudança no procedimento, a prerrogativa de decidir sobre o cancelamento era das direções escolares. Em algumas regiões do estado, diretoras
foram informadas de que a exclusão por atacado foi causada por um “erro do sistema” (que, curiosamente, não foi revertido acionando-se o backup do sistema). Para outras, o recado foi que a exclusão sumária é a nova regra da casa.
 
Uma das apostas da Seduc-SP é que expulsar os estudantes é uma forma de estimulá-los a voltarem às escolas, pressionados por pais desesperados com a perda da matrícula e por telefonemas urgentes de diretores cujas escolas perderam centenas de estudantes da noite para o dia. É bem provável, contudo, que o resultado dessa aposta seja a exclusão definitiva de uma massa de estudantes da rede estadual, uma vez que a Seduc-SP não criou condições para a implementação de sistemas de busca ativa centrados nas escolas e que, nos dias que correm, o maior desespero das famílias vulneráveis em São Paulo é ter condições de se alimentar.
 
Com isso em mente, o engenhoso governo paulista lançou um programa de “transferência de renda” com o objetivo de prevenir o abandono escolar: uma “bolsa” de mil reais por ano eletivo para 300 mil estudantes do ensino médio e do 9º ano do ensino fundamental em condições de pobreza ou extrema pobreza. O cronograma de pagamentos do novo benefício – dividido em nove parcelas de R$ 111,00 – coincide com o início e o final dos bimestres letivos, de modo que ele mais poderia ser classificado como uma recompensa do que como um auxílio para a garantia da permanência na escola.
 
O prêmio em dinheiro exige que – a cada bimestre – os estudantes mais vulneráveis da rede estadual mantenham a frequência escolar acima dos 80%, realizem atividades complementares por meio do aplicativo do Centro de Mídias de São Paulo (CMSP) e participem de, pelo menos, uma das avaliações oficiais. Os estudantes do 3º ano do ensino médio também precisam cumprir no mínimo 80% das atividades preparatórias para o Enem no aplicativo.
 
Além de constituírem um grave problema social por si sós, as taxas elevadas de abandono escolar também contribuem para derrubar os números do Idesp, principal indicador educacional da rede paulista. A criação de um programa de recompensas para lidar com o problema do abandono escolar é a expressão máxima do arranjo gerencial-reacionário que barbariza a educação pública paulista. A nova política de “transferência de renda” se endereça menos à mitigação da pobreza que tira os estudantes das escolas do que ao problema administrativo burocrático da própria Seduc-SP, interessada em manter as taxas de expurgo da rede estadual em níveis estacionários e, de preferência, fora do radar da opinião pública. A quintessência do bolsodorismo.
 
Para quem acredita no retorno de Bolsodoria como mera expressão de oportunismo eleitoral, recomendo que procure saber o que se passa nas escolas estaduais da maior rede pública do país.
 
Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.
 
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