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Observatório da Violência

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Qui, 26 de Outubro 2017 - 16:29

De notas baixas a depressão na vida adulta, as marcas do bullying em agredidos e agressores

Por: André Bernardo Do Rio de Janeiro para a BBC Brasil

 
 
Taiuva, 27 de janeiro de 2003. Na pequena cidade no interior de São Paulo, o estudante Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, volta ao colégio onde concluiu o ensino médio, Coronel Benedito Ortiz, cumprimenta a zeladora e se dirige para o pátio. Lá, bem na hora do recreio, saca um revólver calibre 38 e começa a efetuar disparos. Após ferir nove pessoas, entre alunos, professores e funcionários, se mata com um tiro na cabeça.
 
O caso de Taiuva, a 363 km da capital paulista, é o primeiro que se tem notícia de bullying que termina em morte no Brasil - Edmar sofria de obesidade e, mesmo depois de perder 30 quilos, continuou a ser ridicularizado pelos colegas. De lá para cá, pelo menos três outros episódios deixaram um saldo de 16 mortos e 16 feridos.
 
A tragédia mais recente a reacender o debate sobre bullying aconteceu em Goiânia na semana passada, quando um estudante de 14 anos disparou contra colegas, matando dois e ferindo outros quatro. Testemunhas disseram que o aluno sofria com gozações dos colegas, mas os pais e a direção da escola afirmaram não ter conhecimento disso. Ainda se investiga se foi isso o que detonou o episódio.
 
Nesta terça-feira, um boletim hospitalar informou que uma das adolescentes baleadas no caso teve uma lesão na medula e ficou paraplégica.
 
Casos de bullying no ambiente escolar são mais comuns do que se pensa. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 7,4% dos 2,6 milhões de estudantes que cursaram o 9º ano do ensino fundamental em 2015 - algo em torno de 195 mil alunos - afirmaram ter sofrido bullying por parte dos colegas.
 
Entre os que se sentiram humilhados, os principais motivos de chacota foram a aparência do corpo (15,6%) e do rosto (10,9%).
 
O índice de alunos que admitiram já ter chantageado o colega, espalhado boatos ou criado apelidos pejorativos consegue ser ainda maior: 19,8% - ou 520 mil estudantes. Desses, 24,2% são meninos e 15,6%, meninas.
 
"As consequências são as mais variadas e dependem muito de cada indivíduo. No entanto, todas as vítimas, em maior ou menor proporção, sofrem com os ataques", afirma a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas. "Muitas delas levarão marcas profundas para a vida adulta e precisarão de apoio para superar o problema."
 
O estrago mais evidente é no próprio rendimento escolar dos alunos que sofrem ou praticam esse tipo de agressão física ou psicológica.
 
Essa é uma das conclusões a que chegou a mais recente edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês), de 2015. De acordo com o estudo, que avaliou o desempenho escolar de 540 mil estudantes de 72 países, escolas com alta incidência de bullying tendem a apresentar notas mais baixas do que aquelas que procuram combater essa prática dentro e fora de sala de aula.
 
"O bullying traz sérias consequências tanto para o agressor quanto para a vítima", alerta Andreas Schleicher, diretor de Educação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pela aplicação do PISA.
 
"Tanto aqueles que praticam bullying quanto os que sofrem estão mais sujeitos a tirar notas baixas, faltar às aulas e a largar os estudos que aqueles que não têm relação conflituosa com os colegas."
 
Do bullying à depressão
 
A longo prazo, o impacto pode ser notado não apenas no desempenho escolar do aluno, mas também em sua saúde física e mental. É o que dizem dois estudos - um americano e outro britânico.
 
O primeiro deles, do Hospital Infantil de Boston, nos EUA, revela que quanto mais longo o período em que uma criança ou adolescente sofre ameaça, xingamento ou intimidação, mais grave e duradouro será o impacto sobre a saúde da vítima.
 
Para chegar a essa conclusão, a pediatra Laura Bogart e sua equipe monitoraram a saúde de 4,2 mil estudantes do quinto ao 10º ano. E descobriram que, não importa a idade, sofrer bullying pode causar desde baixa autoestima até quadros de estresse, ansiedade e depressão.
 
O outro estudo é da universidade King's College London, na Inglaterra. A psicóloga Louise Arseneault investigou o histórico médico de mais de 7 mil britânicos desde a época em que tinham entre sete e 11 anos e ainda frequentavam o colégio até a quinta década de vida. E o resultado foi preocupante: indivíduos que sofreram maus-tratos na infância tinham mais propensão que os demais a desenvolver doenças psicossomáticas na vida adulta.
 
"Há uma máxima na medicina que diz: quanto mais cedo você diagnosticar um problema e começar a tratá-lo, melhor será o prognóstico. Esse raciocínio se aplica também ao bullying", alerta o psiquiatra Ricardo Krause, vice-presidente da Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (ABENEPI).
 
"Quanto mais cedo você identificar um caso de bullying e começar a combatê-lo, menor será o estrago que ele vai causar na vida tanto da vítima quanto do agressor."
 
O que é bullying - e o que não é
 
Mas, será assim tão fácil identificar um caso de bullying? Especialistas garantem que sim. Para tanto, a agressão deve reunir quatro características: a intenção do autor em ferir o alvo, a repetição da agressão, a presença de um público espectador e a concordância do alvo com relação à ofensa. Em outras palavras: discussões ou brigas pontuais entre alunos não são bullying. Conflitos entre aluno e professor também não.
 
E mais: o bullying físico, aquele que engloba violência como socos, chutes e empurrões, é o de mais fácil identificação. Mas existem outros sete tipos: psicológico, moral, verbal, sexual, social, material e virtual. Meninos praticam (e sofrem) mais bullying físico. Meninas, moral.
 
Quem sofre bullying, não importa o tipo, tende a apresentar um comportamento típico: no recreio, permanece isolado do resto do grupo ou próximo a adultos que podem protegê-lo das investidas do agressor. Em sala de aula, fala pouco, falta muito e tira notas baixas. Nas atividades em grupo, é sempre o último a ser escolhido. Em casa, quando está perto da hora de ir para a escola, costuma se queixar de dor de cabeça, enjoo ou tontura.
 
Por que será?
 
"Em geral, as crianças não relatam seu sofrimento por medo ou vergonha. Por essa razão, a identificação precoce por pais ou professores é de suma importância", avalia Barbosa Silva.
 
Como responder
 
Vigora no país desde o dia 9 de fevereiro de 2016 uma lei que obriga as escolas a combater o bullying.
 
O Programa de Combate à Intimidação Sistemática determina que equipes pedagógicas sejam capacitadas para desenvolver ações de prevenção e solução do problema, e que pais e familiares sejam orientados para identificar vítimas e agressores. Estabelece também que sejam realizadas campanhas educativas e fornecida assistência psicológica, social e jurídica a todos os envolvidos.
 
"Na prática, o combate ao bullying não melhorou em nada. O que as escolas fazem é dar palestras para os alunos, passar redação sobre o tema e ponto final. A capacitação dos educadores continua muito fraca e, sem ela, nada vai mudar", avalia a psicóloga Valéria Rezende da Silva, autora do livro Bullying Não É Brincadeira.
 
Mas não basta capacitar os professores. A maioria deles já sabe distinguir entre brincadeira e perseguição, zoeira e ameaça, trolagem e intimidação. É preciso também engajar os pais e responsáveis na vida escolar de seus filhos, na opinião da psicopedagoga Maria Irene Maluf, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).
 
"Precisamos desfazer a ideia de que o bullying é um problema para os professores resolverem. Na maioria das vezes, ele começa fora dos muros escolares", ressalta Maluf.
 
Soluções para o problema existem, afirma a pedagoga Cléo Fante, autora de Fenômeno Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz. O mais famoso programa antibullying do mundo talvez seja o finlandês KiVa - acrônimo de "Kiusaamista Vastaan", que significa "Contra o Bullying", em livre tradução.
 
Diferentemente de outras metodologias, que focam o combate e a prevenção na figura da vítima e do agressor, o KiVa parte da premissa que, quando não faz nada, o espectador endossa a ação do agressor. "Em vez de apoiarem os praticantes de bullying ou de se omitirem de ajudar as vítimas, as testemunhas são orientadas a intervir, melhorando o convívio escolar", explica Fante.
 
O KiVa foi criado em 2009 depois que um estudante de 18 anos invadiu sua escola na cidade de Jokela, em Tuusula, e matou oito pessoas.
 
Segundo levantamento com 30 mil alunos de 7 a 15 anos, o modelo pedagógico, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Turku, chegou a erradicar o bullying em até 80% das escolas e a reduzir sua prática em outras 20%. Não por acaso, já foi exportado para mais de 20 países da Europa e América do Sul.
 
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