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Observatório da Violência

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Sex, 01 de Novembro 2013 - 15:03

12 questões para ajudar pais a lidar com o bullying escolar

Uma estudante de 12 anos de uma escola de Piracicaba, em São Paulo, foi agredida na rua em frente à escola que estudava. A agressão aconteceu na saída da aula quando cinco meninas começaram a bater nela. A menina afirmou que há um mês vinha sofrendo bullying escolar. "Elas me chamam de gorda e dizem que tenho um monte de estrias", disse em entrevista ao site G1.

Em outro caso, um garoto de 17 anos, de São José dos Campos (SP), conseguiu na Justiça o direito de retirar o sobrenome 'Florentina'. O motivo? Ele sofria bullying na escola por parte dos colegas pelo sobrenome ser o mesmo da música Florentina, do humorista Tiririca. O segundo caso de bullying pode parecer menos inofensivo, mas ambos não são únicos e isolados. Um em cada cinco adolescentes com faixa etária entre 13 a 15 anos pratica bullying no Brasil. E a maioria das agressões ocorre na sala de aula.

Em junho de 2013, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou em caráter conclusivo um projeto que obriga a escola a adotarem medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate ao bullying. As metas seriam capacitar professores para atuar na solução do problema, organizar campanhas de conscientização, dar assistência e tratamento psicológico às vítimas e aos agressores, em vez de puni-los. O projeto, até o fechamento desta matéria, ainda aguarda apreciação do Senado.

Psicólogos explicam como pais podem ajudar os filhos a não serem nem vítimas e nem agressores do bullying escolar.

Um em cada cinco adolescentes pratica bullying no Brasil

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em junho de 2013 revelou que um em cada cinco adolescentes com faixa etária entre 13 a 15 anos pratica bullying no Brasil. Ainda segundo a pesquisa, 26,1% dos meninos praticam bullying e 16% das meninas. Eles também são os que mais sofrem agressão (7,9%) em relação a elas (6,5%). Para o estudo, foram entrevistados 109.104 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série) de um total de 3.153.314 alunos.

Bullying escolar ocorre mais dentro da sala de aula

Outro dado é que o bullying escolar no país ocorre, em sua maioria, dentro da sala de aula: 21%. A constatação é de uma pesquisa organizada pela Plan Internacional, ONG voltada para os direitos da infância. O estudo 'Bullying Escolar no Brasil', divulgado em julho de 2010, foi o primeiro a abranger escolas de todas as regiões do País ao ouvir 5.168 alunos, entre 5ª e 8ª série, entre professores e gestores de instituições de ensino e familiares de estudantes.

Como definir o bullying?

Quézia Bombonatto, psicopedagoga clínica e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), explica que o bullying é uma palavra de origem inglesa utilizada principalmente para atos agressivos, violência física ou psicológica, sempre intencionais. 'É um ato sempre repetido. O que está por trás do bullying é um desejo consciente de maltratar outra pessoa', explica.

A maior parte dos casos de bullying ocorre, em geral, dentro dos muros da escola. 'Há também fora desses muros, que é o cyberbullying, onde as consequências são rápidas e também mais amplas porque atinge um número de pessoas maior e muitas vezes engloba coisas e pessoas da própria escola', esclarece.

O perfil das vítimas do bullying escolar

Para a psicóloga clínica Triana Portal, que atua há 15 anos como psicoterapeuta atendendo adultos e crianças, qualquer criança que tenha alguma característica que o deixe em desvantagem ou que não seja valorizada pelo grupo é uma vítima em potencial para bullying.

Normalmente são crianças que usam óculos, que têm orelhas de abano, minoria étnica ou religiosa, magros ou gordos, que tenham nomes que propiciem uma piada, por exemplo. 'Trata-se de uma violência moral que afeta mais os que não têm mecanismos para se defender e que acabam aceitando passivamente a situação, pois não conseguem reagir', opina Triana.

'As vítimas, em geral, são aquelas crianças que não se posicionam, as mais tímidas, às vezes com características mais diferentes que geram descriminação por causa da etnia, raça ou que tem algum problema físico, por exemplo. O bullying desmoraliza, desvaloriza, então, são crianças com alguma característica que leva o agressor a atormentar e pegar no pé', aponta Quézia.

O bullying acontece em vários ambientes: no clube, no trabalho, no 'playground' do condomínio e até entre familiares, mas o que ocorre no contexto escolar é mais conhecido e divulgado. 'As características dos envolvidos, no entanto, tendem a ser semelhantes. Os agressores tendem a ser impulsivos, a ter maior capacidade de liderança e ascensão dentro do grupo, trazem de casa modelos agressivos e os vê como qualidades. Geralmente são populares, manipuladores, têm opinião positiva sobre si e são fisicamente maiores e mais fortes que suas vítimas', explica Triana.

Quézia tem a mesma opinião. 'O agressor é alguém que não se importa tanto como a vítima. Ele usa o bullying para se autoafirmar e, às vezes, para se posicionar dentro do grupo. Além do agressor e da vítima, há também a testemunha, aqueles que testemunham toda a situação, mas não se posicionam por temerem se tornar a próxima vítima', completa.

Prejuízos emocionais do bullying escolar

Que sinais revelam que uma criança pode estar sofrendo de bullying na escola? 'Os sinais podem ser depressão, irritação, baixa autoestima, medo, vergonha, queda no rendimento escolar, retraimento social, infelicidade, ansiedade, alterações do sono ou apetite. Além disso, há a tristeza, recusa em ir à escola ou mesmo o descontentamento na hora de ir. A recusa pode ser diretamente expressa ou velada por meio de sintomas físicos, como dores de barriga ou de cabeça', alerta Triana Portal.

Uma dica para pais verificarem se seus filhos têm sido vítimas de bullying é ficar de olho em alguma apatia ou comportamento atípico quanto à escola. 'Conheço, por exemplo, uma garota que sofria bullying e era chamada de gorda por estar acima do peso. Isso afetou tanto que ela deixou de comer. Quando sentia fome, ela ia dormir. Por causa disso, ela começou a passar mal, desmaiava constantemente e logo apresentou um quadro de bulimia. Os danos sociais e psicológicos são muito grandes', alerta Quézia Bombonatto.

Atitudes da família ao identificar o bullying escolar

Ao identificarem o filho como vítima do bullying escolar, a primeira atitude dos pais é tentar conversar com a criança para tentar identificar a dor dela e depois procurar a escola para fazer um trabalho conjunto para ampará-la. 'É preciso também fazer um trabalho de prevenção, mostrar como é inadequado esse comportamento', completa a psicopedagoga Quézia Bombonatto. Conversar com a direção, professores e equipe escolar e pedir auxílio e intervenção deles são algumas das orientações da psicóloga Triana Portal.

'Os pais devem ainda aproximar-se dos filhos, dialogar bastante, trabalhar a resiliência da criança, instrumentalizando-a para lidar com a questão. Alguns pais acreditam em treinar seus filhos para revidar, responder a agressão e por vezes acabam repreendendo os filhos por não se defenderem. Isso é gravíssimo, causa um dano emocional enorme! Em alguns casos, a ajuda de um psicólogo é imprescindível', recomenda Triana Portal.

Como pais podem saber quando é o próprio filho quem pratica?

Para Quézia, o agressor carrega uma série de conflitos dele e, por isso, a família deve estar sempre atenta ao seu comportamento. 'Ele sofre bastante, mas outro tipo de sofrimento onde ele descarrega toda a carga negativa em outra pessoa. A família, junto à escola, deve ampará-lo. Contudo, acontece de muitas vezes a família incentivar o comportamento', diz a psicopedagoga.

Já para Triana, alguns pais não conseguem admitir falhas ou defeitos em seus filhos e por isso preferem culpar os outros mesmo quando têm a consciência de que estão errados. 'Os agressores geralmente trazem de casa um modelo impróprio, valores invertidos ou liberam no ambiente escolar as tensões trazidas do contexto doméstico', opina a psicóloga.

Papel da escola é de prevenção

'Muitas vezes a escola não está preparada para lidar com o assunto. O que ela que tem que fazer é um trabalho de conscientização dentro das salas e também nos pátios, nos intervalos e corredores. E, ao menor sinal de que isto esteja acontecendo, deve atuar de imediato. É preciso também fazer um trabalho de prevenção para mostrar o quanto inadequado é esse comportamento. Intolerância zero com o bullying', defende Quézia.

Na opinião da psicóloga clínica Triana Portal, as instituições de ensino privadas lidam melhor com isso do que as públicas porque dispõem de equipe mais numerosa e preparada para atender os interesses do aluno. 'Os pais também, nesse caso, têm mais força ao reclamar e pedir providências. Já os pais da rede pública têm, infelizmente, pouca voz, temem perder a vaga e represálias aos filhos, enfim, vivem subjugados à situação', opina.

Atenção quanto ao cyberbullying

Numa pesquisa realizada pela ONG Plan Brasil em 2010, dos 5.168 alunos que participaram, 16,8% foram vítimas e 17,7% praticaram o cyberbullying, a violência entre jovens praticada por meios virtuais.

'O cyberbullying é mais rápido e mais devastador porque sai dos muros da escola, o que amplia essa zona de agressão e atinge muito mais rápido e mais pessoas. E o próprio agressor se esconde no espaço virtual', explica Quézia Bombonatto, psicopedagoga clínica e presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

A quem recorrer quando os filhos forem vítimas de agressão decorrentes do bullying?

O advogado Vitor Mattoso, que esteve à frente do projeto 'Bullying Nunca Mais' até 2012, explica que o caminho passa por uma conversa detalhada com o filho e depois o agendamento com a direção da escola. Ele explica que, nestas situações de bullying escolar, é comum que as crianças omitam uma série de informações extremamente importantes e que, por isso, pais devem colher todas as informações que conseguirem por menores que sejam.

'Anote-as preferencialmente e leve à direção da escola. Agende uma reunião com a diretoria sem alarde. Não precisa falar com a criança agressora, afinal, os pais são os responsáveis por ela. Ao chegar à escola seja o mais discreto possível. Faça a exposição de fatos e verifique quais serão os procedimentos adotados para que o problema seja devidamente solucionado. Pegue telefones de contato (da sala de direção) e e-mail e mantenha em constante comunicação. Demonstre interesse', recomenda Vitor.

Pais devem registrar BO contra a escola ou contra os responsáveis do filho agressor?

O advogado explica que essa é uma questão extremamente delicada e usa algumas situações para explicar. 'Um tapa é uma agressão física? Sim! Se for apenas uma tapa, causado por um desentendimento entre colegas, deve ser registrado algum Boletim de Ocorrência? 'Na maior parte dos casos, não', opina Vitor. Porém, questiona ele, se esse tapa for dado em uma sexta-feira após uma semana de ameaças verbais do tipo 'vou te quebrar todinho', 'vou te matar' ou 'vou acabar com você', deve ser registrado algum BO? 'Neste caso, pode ser interessante', analisa.

E se o tapa for desferido nas mesmas condições de ameaças verbais e for tão forte a ponto de causar rompimento do tímpano (o famoso 'telefone'), o BO deve ser registrado? 'Com certeza', defende Vitor, que ressalta que o boletim de ocorrência depende do contexto e que atualmente o bullying não é tipificado como crime, ainda que já esteja sendo aceito pelos tribunais como uma circunstância que pode orientar o julgamento.

'Em um ambiente escolar acontecem muitas coisas o tempo todo e todos os dias. São crianças e adolescentes em pleno desenvolvimento, e uma visita à delegacia pode mais prejudicar que ajudar a resolver a situação. De qualquer forma, são os infratores, sejam eles menores ou maiores, que figurarão no BO, ou seja, não são nem a escola nem os pais do filho agressor. Estes, a escola e pais, entrarão como responsáveis em um eventual processo', explica.

Portal Tempo de Mulher - 31.10
Por: MADSON MORAES

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