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Observatório da Violência

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Ter, 13 de Agosto 2019 - 16:31

'Fui agredido em sala de aula': 3 professores contam histórias de violência, trauma e decepção

Por: André Bernardo - BBC News Brasil - 12.08

 
 
"Um filme de terror". É assim que o professor Thiago dos Santos Conceição, de 32 anos, descreve os momentos de tensão que viveu no dia 18 de setembro de 2018, quando um grupo de alunos do 9º ano do CIEP Municipal Mestre Marçal, em Rio das Ostras (RJ), começou a hostilizá-lo durante uma aula de Língua Portuguesa.
 
"Tive muito medo. Pensei que fosse morrer", admite o docente que, por medida de segurança, se viu obrigado a pedir transferência para outro município.
 
Thiago não é o primeiro a sofrer violência física ou verbal em sala de aula. E, a julgar pelos números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ele também não será o último.
 
Segundo os dados mais recentes, de 2013, o Brasil lidera o ranking de violência escolar: 12,5% dos docentes brasileiros relataram ser vítimas de ameaças, xingamentos ou agressões ao menos uma vez por semana. A média mundial da organização que reúne 34 países é de 3,4%.
 
Em maio, uma professora de 59 anos foi agredida a tapas pela mãe de um aluno dentro da E. E. Oscar Pereira, em Porto Alegre (RS). Um mês depois, oito estudantes arremessaram mesas e cadeiras em uma professora da E. E. Maria de Lourdes Teixeira, em São Paulo (SP).
 
Um caso mais extremo aconteceu no dia 30 de abril, quando o professor Júlio César Barroso de Sousa, de 41 anos, foi morto a tiros por um aluno do Colégio Estadual Céu Azul, em Valparaíso (GO), após uma discussão.
 
'Não tinha condições de continuar dando aula. Nem se quisesse'
 
Com 20 anos de magistério, Paulo Rafael Procópio, de 62 anos, cansou de ouvir falar de casos de violência em sala de aula. Nunca imaginou, porém, que, um dia, aconteceria com ele.
 
"Por mais que o tempo passe, a gente não consegue esquecer uma violência dessas", afirma o professor de História e Geografia.
 
No dia 22 de fevereiro de 2019, Paulo estava em sala quando um estudante de outra turma interrompeu a aula para falar com a prima. O docente sugeriu a ele que esperasse o fim da aula ou o recreio.
 
Foi o suficiente para o rapaz, de 12 anos, reagir com violência e arremessar um caderno na direção do professor. Mas, a agressão não parou por aí. Em seguida, deu um soco. E mais um. E mais outro.
 
"Se não tivesse me defendido, o estrago teria sido maior", lamenta o professor, que levou seis pontos no rosto e dois no supercílio.
 
A violência aconteceu na Escola Estadual Otacílio Sant'Anna, na cidade de Lins, no interior de São Paulo. No mesmo dia, Procópio registrou queixa na polícia e anunciou sua aposentadoria.
 
"Não tinha condições de continuar dando aula. Nem se quisesse", admite.
 
A notícia causou comoção no colégio onde Paulo lecionava havia três anos. Muitos alunos pediram para ele reavaliar sua decisão.
 
"Já estava quase me aposentando mesmo. Aquele episódio apenas encurtou minha carreira", queixa-se.
 
O caso ganhou repercussão nacional. Até convite para comparecer em Brasília, para uma audiência com o então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, Paulo recebeu. O encontro aconteceu no dia 8 de março.
 
"A figura do professor não é valorizada em nosso país. É muito trabalho e pouco reconhecimento", resume. A culpa, avalia, é de todos: governo e sociedade. "Os pais não sabem educar os filhos. Por essa razão, tinham que ser punidos pelas atitudes deles", acredita.
 
Paulo se aposentou. E o aluno que o agrediu foi internado, por 45 dias, na unidade Vitória Régia, da Fundação Casa, em Lins. "Na maioria das vezes, o aluno é suspenso por três dias e, depois, volta à sala de aula, como se nada tivesse acontecido. Em alguns casos, ele é transferido de escola. Isso não resolve o problema. Apenas transfere o problema para outro professor tentar resolver", dá o alerta.
 
'O que fiz de errado para ser hostilizado daquela maneira?'
Era para ser uma terça-feira como outra qualquer. Morador de Itaboraí, a 45 km do Rio de Janeiro, o professor Thiago dos Santos Conceição, de 32 anos, acordou cedo - por volta das quatro da manhã -, pegou um ônibus e, duas horas e meia depois, chegou ao CIEP Municipal Mestre Marçal, no bairro Jardim Campo Mar, em Rio das Ostras, na Região dos Lagos.
 
Naquele dia, 18 de setembro de 2018, aplicaria prova de Língua Portuguesa para uma turma do 9º ano. Bem que tentou, mas não conseguiu. Um vídeo na internet mostra seis alunos hostilizando o professor. Um deles amassa a prova antes de entregá-la.
 
Não satisfeito, rasga um pedaço do papel com os dentes e amassa a avaliação do colega ao lado. O mesmo estudante, de 16 anos, arremessa a pochete no quadro negro, a poucos centímetros do professor.
 
Depois de ouvir ameaças e xingamentos, Thiago pede ajuda na porta, mas ninguém aparece. "Até hoje, não sei o que levou aqueles alunos a agirem com tamanha brutalidade. O que fiz de errado para ser hostilizado daquela maneira?", pergunta o docente que, naquele mesmo dia, prestou queixa à polícia e pediu demissão da escola.
 
"Muitos colegas não denunciam as agressões por medo de retaliação. Não conhecem o aluno, nem sabem do que ele é capaz", afirma.
 
Durante duas semanas, Thiago não conseguiu fazer outra coisa a não ser chorar. Chorar e se perguntar: "Onde foi que eu errei?"
 
Passado um mês e meio, voltou a entrar em sala de aula, em outra escola de outro município. Foi acolhido pelos alunos com cartazes: "Força, Thiago!" e "Professor Nota 10".
 
"Tive medo de voltar a lecionar. Passava um filme de terror pela minha cabeça", explica. Diante da repercussão, um dos agressores gravou um vídeo, pedindo desculpas: "Vacilei, reconheço meu erro".
 
Na opinião de Thiago, o governo tem sua parcela de culpa. Não investe na educação como deveria e, segundo ele, transforma o professor no vilão da história.
 
"Há casos de ameaça até em turmas de educação infantil. Os alunos levam tesoura para intimidar os professores", relata.
 
Quanto aos ex-alunos, diz ter compaixão deles. E lamenta não ter podido ajudá-los. "Acredito no poder transformador da educação. Mas, naquele caso, nada pude fazer", se entristece.
 
'O Brasil só vai valorizar o professor quando não houver mais nenhum em sala de aula'
Em suas aulas do Ensino Médio, a professora Márcia Friggi, de 53 anos, costuma sabatinar seus alunos sobre o futuro profissional.
 
Quando pergunta se alguém quer seguir o magistério, a resposta, invariavelmente, é uma só: gargalhadas. "É como se dissessem: 'Para quê, professora? Para ganhar a miséria que a senhora ganha?'."
 
O cenário é preocupante, admite. Na avaliação dela, poucos são os pais que se preocupam com o desempenho escolar dos filhos, se eles fazem bagunça ou tiram notas baixas.
 
"O Brasil só vai valorizar a figura do professor quando não houver mais nenhum em sala de aula". Ela própria, por pouco, não abandonou a profissão.
 
Em 21 de agosto de 2017, a professora de Língua Portuguesa e Literatura postou em redes sociais uma foto sua com o rosto ensanguentando. A imagem viralizou.
 
Márcia foi agredida por um aluno de 15 anos no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) em Indaial, em Santa Catarina, a 170 km de Florianópolis.
 
Tudo começou quando Márcia pediu a ele que tirasse o livro de cima das pernas e o colocasse sobre a carteira. "Coloco onde quiser", resmungou. Ela insistiu. "Ah, vá se f...", esbravejou o aluno.
 
Expulso de sala, o rapaz ainda jogou um livro na direção da professora. Na diretoria, tentou argumentar que tudo não passava de mentira. "Mentira? A sala toda viu!", respondeu a docente. Foi quando o estudante desferiu três socos.
 
"Foi tudo muito rápido. Não tive como me defender", recorda. Dias depois, o agressor postou um vídeo nas redes sociais.
 
"Não sou um monstro", disse o adolescente que já tinha sido denunciado por agredir a mãe e ameaçar um conselheiro tutelar.
 
Márcia levou seis meses para voltar à sala de aula. Neste período, teve acompanhamento médico e psicológico. Traumatizada, não conseguia, sequer, ouvir a algazarra das crianças na hora do recreio de um colégio perto de casa. Fechava a janela.
 
"Quase dois anos depois, o sentimento que fica é de desamparo. Quem me levou ao hospital foi um colega de trabalho. Ninguém da direção me acompanhou. Eu me senti sozinha. É um absurdo que me dói até hoje!", lamenta.
 
 
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