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Ter, 15 de Outubro 2019 - 16:36

Sob pressão, professores se afastam por transtorno

Rone Carvalho - Diário da Região - 15.10

 
 
TENSÃO
 
Em um ano, 1.235 professores da rede estadual foram afastados por transtornos mentais e comportamentais na região. Situações motivadas por estresse, desvalorização e até ameaças
 
Dar aula era o sonho de Maria do Carmo (nome fictício) quando ainda era criança, mas se transformou em um verdadeiro drama depois de alguns anos. "Quando eu fui perceber já estava com depressão. Foi quando saí da sala de aula, lembro que chorando, desci a escada e a única coisa que lembro é que joguei minhas cadernetas no chão e falei para Deus que não queria mais dar aula", contou a professora, de 51 anos.
 
Estresse, cansaço e baixo salário foram algumas das motivações que levaram a professora da rede estadual de ensino a se afastar. Apenas em 2017, segundo dados do último levantamento do Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp) obtidos pelo Diário, foram 3.340 afastamentos de professores no Noroeste Paulista. Em média, 37% dos afastamentos, cerca de 1.235 casos, foram por transtornos mentais e comportamentais, provocados pelos problemas relatados por Maria e também por ameaças e até agressões de alunos, entre outros fatores.
 
Em todo o Estado, o número de licenças aumentou em 11% nos últimos dois anos. Conforme dados obtidos pelo Diário, por meio da Lei de Acesso à Informação, no ano passado, 50.864 docentes foram afastados por transtornos mentais nas escolas estaduais, contra 45.879 licenças em 2017. Só que o problema não está apenas no Estado. Na rede municipal de ensino de Rio Preto, nos últimos dois anos e meio, 178 professores também foram afastados da sala por transtornos mentais.
 
A professora Joana, 41 anos, precisou se afastar do ambiente escolar por conta do estresse diário. "Esse ano eu já fiquei afastada, estou passando pela psicóloga e tomando antidepressivos. O abalo emocional é enorme. Me sinto desiludida quando tento e alguns alunos atrapalham a aula. Até pensei em abandonar a carreira, mas dependo do salário", contou a professora, que dá aulas para crianças do quinto ano.
 
Casos como os de Maria do Carmo e Joana acendem um sinal de alerta na educação. Para a professora de Psicologia da Educação da Unesp Rio Preto Luciana Nogueira da Cruz, são vários os fatores que estão culminando no adoecimento dos professores.
 
"Temos desde a desvalorização do conhecimento científico, da formação inicial docente [cursos de licenciaturas sem qualidade], baixos salários, falta de infraestrutura nas escolas e cortes na Educação. Tanto que professores de escolas estaduais atuam em carga dupla e até tripla. Lecionam em até três escolas", ressaltou Luciana.
 
A professora do departamento de educação da Unesp Rio Preto Mônica Abrantes Galindo trabalha diretamente na formação dos futuros professores. "A maioria vai para a profissão com muito idealismo, com uma ideia de contribuir, com uma ideia que a educação pode transformar. E o dia a dia vai se impondo de forma muito forte e dura, causando um sofrimento muito grande", destacou.
 
Ações
 
Por meio de nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo disse que desenvolve um conjunto de medidas voltadas para a melhoria das condições de saúde de seus profissionais. "Uma dessas iniciativas é o serviço especializado oferecido pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe). Os servidores podem buscar atendimento, inclusive de forma preventiva. Dessa forma, eles são encaminhados para tratamento de acordo com a especialidade médica. As perícias médicas para fins de licença para tratamento de saúde são solicitadas pelo servidor ao superior imediato ou diretamente ao órgão de pessoal", diz.
 
Ainda segundo a nota, o agendamento deve ser feito no Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME). Quando necessário, o servidor é readaptado para desempenhar atividades que façam parte do rol de atribuições de seu cargo, sendo observadas as limitações impostas pela doença da qual seja portador. Esse rol de atribuições é estabelecido pela Comissão de Assuntos de Assistência à Saúde e é encaminhado à chefia do servidor para sua ciência.
 
O Diário também entrou em contato com a Prefeitura de Rio Preto, mas até o fechamento da edição a reportagem não obteve retorno.
 
Agressões aumentam
 
Doze professores foram agredidos em sala de aula na região no ano passado. O número é seis vezes maior do que o de 2017, quando dois casos foram registrados no Noroeste paulista. No Estado, o aumento também foi exponencial, passando de 251 registros de agressões em 2017, para 434 em 2018. Aumento de 73%.
 
Contudo, os números são subnotificados, segundo a professora Joana (nome fictício), pois muitos casos não são denunciados. "Toda semana tem professor chorando na escola. Tem alguns que têm até o carro danificado, e o professor não tem coragem de denunciar, por medo", contou.
 
Em consequência dos problemas, segundo a professora do Ibilce Mônica Abrantes, cada vez mais alunos desistem da licenciatura como opção de curso na graduação. "Esses problemas e condições de trabalho são algumas das causas para ter um forte desestímulo para licenciatura. Vivemos falando que a educação é a base, que é a coisa mais importante do país. Mas quando vamos ver as condições de trabalho dos professores das redes públicas existem contradições muito grandes", afirmou.
 
Enquanto isso, Maria do Carmo, que é professora de língua portuguesa e inglesa e está afastada há três anos da sala de aula, sonha em um dia poder voltar tranquila a dar aula, sem medo. "Eu amo dar aula, mas eu gostaria de dar aula para quem quer aprender. Digo sempre e vale a pena a reflexão. Quem ensinou a ler e a escrever foi o professor", disse. (RC)
 
Afastamentos nas redes estadual e municipal
 
Distribuição de perícias médicas com pareceres favoráveis em professores por diretoria de ensino (número de professores afastados)
 
CATANDUVA
2014 - 364 afastamentos
2017 - 406 afastamentos
 
FERNANDÓPOLIS
2014 - 367 afastamentos
2017 - 507 afastamentos
 
JALES
2014 - 417 afastamentos
2017- 573 afastamentos
 
JOSÉ BONIFÁCIO
2014 - 351 afastamentos
2017 - 370 afastamentos
 
RIO PRETO
2014 - 894 afastamentos
2017 - 1.015 afastamentos
 
VOTUPORANGA
2014 - 463 afastamentos
2017 - 469 afastamentos
 
TOTAL NA REGIÃO
2014 - 2.910 afastamentos*
2017 - 3.340 afastamentos*
 
*Em média, 37% dos afastamentos são por transtornos mentais ou comportamentais. Na região, isso representa 1.235 casos
 
Professores afastados por transtornos mentais ou comportamentais em todo o Estado de São Paulo
2017 - 45.879 afastamentos
2018 - 50.864 afastamentos
 
Professores agredidos em todo o Estado de São Paulo
2017 - 251 registros de agressões
2018 - 434 registros de agressões
 
Professores agredidos em escolas da região
2017 - 2 registros de agressões
2018 - 12 registros de agressões
 
Professores afastados na rede municipal de ensino de Rio Preto por doenças psiquiátricas
2017 - 79 professores afastados
2018 - 68 professores afastados
2019 (janeiro a junho) - 31 professores afastados
 
 
Fontes: Secretaria Estadual da Educação via Lei de Acesso à Informação, DPME_fev/2019 por Lei de Acesso à Informação, Apeoesp, Prefeitura Municipal de Rio Preto
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