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Sex, 01 de Novembro 2019 - 15:53

Performance nas escolas públicas: construção de protagonismos estudantis e reflexões sociais

Dissertação de mestrado traz questionamentos sobre o lugar da performance nas escolas e como ela pode contribuir para o pensamento crítico dos alunos

Por: Samantha Nascimento da Silva / ECA / USP

 
O corpo, além de ser um corpo, pode ser um meio de comunicação? Ele pode realmente ser uma forma de protesto ou de reflexão? Essas são questões que permeiam o campo das artes há muito tempo. O corpo sempre foi um objeto polêmico de estudos: há sua ampla relação com a nudez, como nos mostram as históricas pinturas renascentistas. Por outro lado, ainda existe um imenso tabu sobre o corpo feminino, a não ser quando este corresponde ao desejo masculino, aceito socialmente. 
 
Mas quando falamos sobre o lugar do corpo em performances artísticas, ainda há grandes controvérsias sobre o tema. Na sociedade há uma mistura de pensamentos que não aceitam este "novo" lugar do corpo e passam a enxergá-lo como uma aberração. No entanto, a performance está aí desde os anos 60, trazendo à tona questões que muitas vezes não são discutidas, por serem temas considerados tabus ou no mínimo polêmicos. Persiste também uma intensa convocação da performance como possibilidade de transgressão e mecanismo de denúncia sobre problemas sociais.
 
Performance: uma arte não convencional em tempos convencionais
 
A linguagem da performance é, na realidade, um híbrido de muitas linguagens artísticas, como literatura, audiovisual, dança, teatro, entre outras, tendo em muitas ações a participação do público. No entanto, na performance nada é encenado. Toda ação que está diante do público é uma experiência real. 
 
A performance surge na década de 60 e 70 nos Estados Unidos, com o grupo Fluxus, com experiências inspiradas nos dadaístas e surrealistas. Um dos nomes mais conhecidos do grupo foi John Cage, que realizava ações explorando outros lugares na música, ou mesmo uma ideia de "não-música", incorporando ruídos e sons do cotidiano para romper com os territórios musicais conhecidos. 
 
Outro nome importante ligado ao grupo Fluxus foi Joseph Beuys, que além de ter sido um dos pioneiros da performance também foi um dos precursores do movimento ambientalista alemão. Beuys trabalhava muito as alegorias em suas ações. Uma das mais conhecidas, Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim, realizada nos Estados Unidos no ano de 1974, trouxe muito impacto dentro da Arte Contemporânea: o artista ficou envolvido em feltro em uma sala fechada com um coiote, durante sete dias.
  
Nos anos 70 Marina Abramovic vem consolidar o mundo da performance, trabalhando os limites do próprio corpo com  diversas ações inusitadas, como "brincar" com facas durante a ação Rhythm 10, estar sob o efeito de drogas controladas, como em Rhythm 2, ou ainda, colocar-se à disposição dos espectadores e estar extremamente vulnerável durante seis horas na ação Rhythm 0, esta talvez uma das mais lembradas de sua carreira. Abramovic colocou à disposição do público 72 itens que poderiam ser usados nela, como uvas, flores, facas e uma arma carregada. O resultado: a artista teve líquidos jogados em sua cabeça, correntes colocadas em seu pescoço, a blusa cortada e uma arma carregada apontada para si. A ação tem sido objeto de estudo até os dias de hoje dentro da psicologia e psicanálise, levantando a seguinte questão sobre a índole humana: é possível que tenhamos naturalmente uma tendência ao sadismo, sobretudo quando estamos diante de um indivíduo que se encontra em situação de vulnerabilidade?
 
As escolas públicas como locais de resistência e como novo suporte para a performance 
 
Foi pensando no lugar da performance e na união entre Artes e Educação que Thiago Camacho defendeu recentemente sua tese de mestrado A arte da performance na escola pública: estudo de casos sobre os sentidos da subversão no universo escolar, sob a orientação do professor do Departamento de Artes Cênicas (CAC), Marcelo Denny e disponível no Banco de Teses da USP.
 
O ponto de partida da pesquisa foram as ações performáticas em escolas da Zona Sul de São Paulo, onde Thiago atua como professor de artes do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. Essas ações tentavam dar visibilidade a situações de violência que alguns alunos passavam frequentemente na entrada da escola, por parte da Ronda Escolar. "Alguns dos alunos me relataram que estavam recebendo tratamentos violentos da Ronda na entrada da escola, com xingamentos racistas, homofóbicos e até tapas na cabeça deles. Um dia eu mesmo acabei vendo essa situação e não consegui ficar sem fazer nada. Não podemos deixar que policiais agridam os alunos de forma gratuita, principalmente quando esses alunos são menores de idade e vulneráveis", conta Thiago. 
 
Após o ocorrido, o professor convocou uma reunião na escola para informar aos pais o que estava acontecendo. "Infelizmente alguns pais foram a favor da violência policial; já outros ficaram perplexos", diz. O resultado foi que administrativamente não houve uma resolução do caso e os alunos insistiram com o professor em fazer uma ação, que seria a primeira de muitas. 
 
"Os alunos então decidiram fazer cartazes de protesto contra a Ronda Escolar, pintaram os olhos de roxo e ocuparam a escola. A ação repercutiu muito porque foi realizada durante a saída, momento em que a Ronda Escolar também está pelas redondezas", conta o professor. A performance não foi bem recebida pela Polícia Militar, que fez uma reunião com Thiago questionando os motivos da ação e informando que se houvesse continuidade ele poderia ser processado.
 
Naquele momento, Thiago resolveu acatar a vontade dos policiais, mas não deixou de lado a possibilidade de aprofundar ações performáticas na escola. O orientador de Thiago, o professor Marcelo Denny, afirma que "estamos vivendo uma era de reações um tanto anêmicas e distorcidas, quando a figura de um professor acaba sendo considerada mais violenta e mais ameaçadora do que a própria ação policial", afirma o orientador.
 
As escolas públicas do estado de São Paulo apresentam elevados números de violência. O fenômeno parece ser generalizado no país, como aponta o estudo Infância (Des)protegida, da ONG Visão Mundial e também o Violência nas Escolas, da Unesco. Nos dois estudos, chama atenção a banalização da violência, seja entre alunos ou entre alunos e professores, podendo culminar em episódios trágicos, como o tiroteio em uma escola de Suzano em março deste ano, que resultou em dez pessoas mortas.
 
A violência na escola faz parte um contexto marcado por uma série de fatores, como a precariedade de instalações, sucateamento, baixo salário de docentes, profissionais afastados por problemas psicológicos e falta de apoio familiar aos alunos. Muitas famílias tendem a "terceirizar" a educação do aluno para a escola, sendo que o papel primordial dela é alfabetizar, transmitir conteúdos e socializar conhecimentos. Segundo o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) não há políticas públicas para conter a violência nas escolas, o que compromete muito o ensino, a aprendizagem e a convivência.
 
Thiago conta que mesmo com todas as dificuldades que enfrenta sendo professor, "o saldo é transcendental, transformador em relação aos alunos que estão lá." Como forma de driblar a violência, o pesquisador buscou por meio da performance e das artes tecer um pensamento crítico e trabalhar possibilidades de mudança com os estudantes. Os alunos são muito participativos nas ações e discussões, tanto que criaram uma página no Facebook onde registram esses trabalhos: A Escola Pública é Nossa. Uma outra atividade realizada com eles contou com o uso de Máscara Neutra, recurso muito utilizado nas artes cênicas. Nessa ação, a máscara entra como uma representante da alienação e, ao colocá-la, o participante sente o sufocamento e a visão turva que ela provoca, sentimentos que muitas vezes acometem alunos e professores. Com frequência, a alienação e a ausência de discussão de diversos assuntos na escola - como a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e da gravidez, por exemplo -, acabam tendo impacto negativo sobre a vida dos estudantes. "Esses são temas que fazem parte da vida dos jovens e não falar sobre eles não impede que essas questões deixem de existir", pondera o professor.
 
Para Marcelo Denny, orientador de Thiago, essas pesquisas possuem grande relevância social: "como professor há mais de 30 anos, digo que essas pesquisas possuem uma riqueza muito grande quando a arte se filia à educação, pois contribui para esses processos. No campo poético, onde a performance está instalada, esses trabalhos, sejam de gênero ou de afetividades, podem dar resultados mais eficazes que a leitura de textos sobre os mesmos assuntos. (...) É por meio da experiência, do experimentar com o outro, que há mais envolvimento efetivo dos alunos e também do professor; há absorção de conhecimentos. Infelizmente a escola pública ainda carece dessas experiências", comenta.
 
O corpo é, portanto, uma forma de reflexão e de resistência. A performance nas escolas acaba por estabelecer entre estudantes e professores um trabalho de aproximação, que cria afetividades, trocas e novas possibilidades de pensar a própria condição. Trata-se da união de vastos mundos tanto de alunos quanto de professores, que estão inseridos em contextos escolares que são violentos mas que carregam em si a vontade insurgente de transformar suas próprias realidades, e consequentemente, o mundo como um todo, com pequenos gestos que podem impactar a sociedade.  
 
 
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