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Sex, 31 de Outubro 2014 - 12:42

Raça, corpo e gênero são debatidos em doutorado sobre Grande Otelo

Por: Ana Maria Lopes

A obra de Grande Otelo, artista cujo centenário será comemorado no próximo ano, é o tema do doutorado que o pesquisador Luis Felipe Kojima Hirano defendeu no último mês de outubro no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

“Uma interpretação do cinema brasileiro através de Grande Otelo: raça, corpo e gênero em sua performance cinematográfica (1917–1993)” aborda a biografia de Sebastião Bernardes de Souza Prata, o Grande Otelo. Parte da tese foi desenvolvida na Universidade de Harvard, sob a orientação dos professores Nicolau Sevcenko, falecido recentemente, e Clémence Jouët-Pastré.

O pesquisador decidiu abordar a trajetória de um intérprete negro para elaborar um panorama do cinema brasileiro porque encontrou dificuldade para analisar representações artísticas de minorias.

"No caso do cinema, há uma distribuição desigual de papéis entre brancos e negros, os autores, diretores e críticos são em sua maioria brancos. Nesse sentido, é difícil encontrar nos filmes o ponto de vista dos negros”, avalia.

Na USP, a tese foi orientada pela professora doutora do Departamento de Antropologia, Lilia Schwarcz, que destaca a originalidade da pesquisa, que inicialmente seria um mestrado.

"O recorte do trabalho começou com a chanchada, mas depois se estendeu. E, ao estudar a história de Grande Otelo, percebemos que sua biografia ilumina os diferentes momentos do nosso cinema”, explica Schwarcz.

Para além da comédia, a aparência e estatura de Grande Otelo, que tinha 1,50 m de altura, explorava a ideia do negro vitimizado, de quem o espectador sente pena. Kojima Hirano analisou analisou filmes, entrevistas e notícias de jornais.

“Os papéis de Grande Otelo seguem a transformação dos ideais cultivados por um público majoritariamente branco daquilo que deveria ser o negro", explica o pesquisador.

O ator interpretou malandros cariocas nas chanchadas, um pobre explorado em "Rio Zona Norte", filme de 1957 dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e foi Macunaíma, no filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade, também o estereótipo do malandro. Grande Otelo foi considerado pelo cineasta Orson Welles, o maior ator da América do Sul, mas terminou sua vida na "Escolinha do Professor Raimundo", onde vivia um personagem incapaz de falar corretamente.

“Todo personagem que Grande Otelo interpretava recaia sobre seu grupo racial, ao contrário de outros comediantes brancos, como Chaplin ou Oscarito, que geralmente representavam os dilemas do homem universal", analisa Hirano.

Para o pesquisador, a situação dos atores negros ainda é muito difícil, porque as ofertas de papéis para afrodescendentes continuam escassas e limitadas a estereótipos. Uma pesquisa recente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro revelou que entre os principais filmes brasileiros realizados entre 2002 e 2012, apenas 4,4% tinha atrizes pretas e pardas.

"Vivemos em um País em que mais de 50% da população se declara preta ou parda, mas o espaço para atores e atrizes afrodescendentes não chega a 5% no cinema", lamenta o pesquisador.

SERVIÇO: A tese “Uma interpretação do cinema brasileiro através de Grande Otelo: raça, corpo e gênero em sua performance cinematográfica (1917–1993)" está publicada na Biblioteca Digital da USP: www.teses.usp.br

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