
Qua, 12 de Agosto 2026 - 18:30
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A pesquisa foi realizada pelo pedagogo Felipe Willian Ferreira de Alencar, sob orientação da professora Carmen Silvia Vidigal. A dissertação, defendida em 2023, analisou a implantação do programa e sua relação com as mudanças que levaram à introdução do Novo Ensino Médio. O estudo envolveu análise de documentos e indicadores sociais e educacionais, além de pesquisa de campo, entrevistas com professores e diretores e cinco estudos de caso em escolas estaduais.
O Inova Educação foi lançado em junho de 2019 e começou a ser implantado em 2020. A proposta criou três novos componentes curriculares: Projeto de Vida, Tecnologia e Eletivas. A Secretaria da Educação afirmava que o objetivo era desenvolver competências socioemocionais, ampliar o protagonismo dos estudantes e aproximar a escola das necessidades e interesses dos jovens.
Falta de debate
Para o pesquisador, porém, a mudança provocou uma alteração na finalidade da formação oferecida aos estudantes. Segundo a dissertação, a implantação ocorreu de forma centralizada, com pouca participação da comunidade escolar e sem espaços suficientes de consulta e debate.
O estudo também investigou a atuação de organizações privadas na formulação e implantação da política. Segundo Alencar, representantes de fundações, empresas e organizações privadas ligadas à educação e ao setor empresarial participaram de atividades relacionadas ao Movimento Inova, realizado pela Secretaria da Educação.
Precarização do ensino
Na avaliação apresentada na pesquisa, essa aproximação entre governo, empresas e organizações privadas contribuiu para uma mudança no conteúdo da educação pública. O pesquisador afirma que conhecimentos científicos e humanísticos perderam espaço para competências, empreendedorismo e conteúdos relacionados ao mundo do trabalho.
“Minha pesquisa denuncia a precarização da juventude trabalhadora e o esvaziamento de matérias como ciências e literatura, para moldar os alunos ao mercado informal”, revelou o pesquisador
É nesse ponto que aparece a relação feita pelo estudo com a chamada precarização do ensino. A tese sustenta que, ao priorizar competências consideradas úteis para o mercado e reduzir a centralidade de determinados conhecimentos escolares, a política poderia formar estudantes mais adaptados a ocupações precárias e informais, em vez de garantir uma formação ampla e crítica.
Em outras palavras, a crítica do pesquisador não é simplesmente à existência de disciplinas como Projeto de Vida ou Tecnologia. O questionamento está na substituição ou redução de espaço de conteúdos tradicionais e na finalidade atribuída à escola.
A dissertação afirma que o Inova Educação foi implementado sem previsão de melhorias estruturais nas escolas e com poucos espaços de participação. Ao mesmo tempo, o estudo identificou movimentos de resistência de professores e comunidades escolares, que buscaram preservar a autonomia e a participação na definição dos rumos da educação.
A própria Secretaria da Educação, na época da implantação, informou que nenhuma disciplina regular seria excluída e que os cinco novos tempos semanais seriam destinados aos três componentes do Inova: dois para Projeto de Vida, dois para Eletivas e um para Tecnologia.
Por isso, a pesquisa não afirma simplesmente que determinadas matérias desapareceram da grade. A conclusão é mais ampla: para o autor, a reorganização curricular teria reduzido a centralidade de conhecimentos científicos e humanísticos e reforçado uma concepção de educação orientada por competências e pela preparação para o trabalho.
A CBN Vale procurou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo para saber como a atual gestão avalia as conclusões da pesquisa e, principalmente, as críticas sobre a participação de universidades e cientistas, a redução do espaço das disciplinas tradicionais, a aproximação com o mercado de trabalho e a falta de professores para as novas disciplinas.
Em nota, a Secretaria não respondeu diretamente a todos esses pontos. A pasta afirmou que o Currículo Paulista foi elaborado de acordo com a Base Nacional Comum Curricular, com participação de profissionais da educação, especialistas e consultas públicas.
A Secretaria também destacou que a matriz curricular está sendo reorganizada para atender à Lei Federal nº 14.945, de 2024, que alterou as regras do Ensino Médio. Segundo a pasta, a nova organização amplia a Formação Geral Básica, reorganiza os itinerários formativos e busca fortalecer a formação integral dos estudantes.
Sobre a redução do espaço das disciplinas tradicionais, a Secretaria afirmou que optou por manter equilíbrio entre as áreas de Ciências da Natureza e Ciências Humanas na Formação Geral Básica. A nota, porém, não apresentou uma comparação entre a carga horária anterior e posterior à implantação do Inova Educação.
A pasta também não respondeu diretamente se contesta a conclusão da pesquisa de que o programa priorizou conteúdos relacionados ao mercado de trabalho e ao empreendedorismo. Da mesma forma, a nota não esclareceu a afirmação do estudo sobre falta de professores para as novas disciplinas nem apresentou uma avaliação específica dos resultados alcançados pelo Inova Educação desde sua implantação.
A Secretaria informou ainda que está em processo de implementação das mudanças previstas na legislação atual do Ensino Médio, com ações voltadas à recomposição das aprendizagens, à permanência dos estudantes na escola e à melhoria da qualidade da educação pública.
“A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) informa que as políticas curriculares da rede estadual são permanentemente aprimoradas em conformidade com a legislação nacional. O Currículo Paulista foi elaborado em alinhamento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por meio de processos colaborativos com profissionais da educação, especialistas e consultas públicas.
Com a publicação da Lei nº 14.945/2024, que redefiniu a distribuição da carga horária do Ensino Médio entre Formação Geral Básica e Itinerários Formativos, a Seduc-SP organizou sua matriz curricular conforme a nova legislação federal — o que incluiu o retorno da hora-aula de 45 para 50 minutos, padrão já adotado pela maioria das redes estaduais do país. Nessa reorganização, a Secretaria optou por manter equilíbrio na carga horária entre as áreas de Ciências da Natureza e Ciências Humanas, preservando o espaço desta última na Formação Geral Básica. Estudantes que optam pelo itinerário formativo de Linguagens e Humanas ainda podem ampliar significativamente sua carga horária nessa área ao longo do Ensino Médio.
Atualmente, a Seduc está em processo de implementação das alterações previstas na nova legislação do Ensino Médio, atendendo as diretrizes nacionais sobre ampliação da Formação Geral Básica, reorganização dos itinerários formativos e fortalecimento da formação integral dos estudantes. As ações também priorizam a recomposição das aprendizagens, a permanência dos alunos na escola e a melhoria contínua da qualidade da educação pública. Esse processo de atualização é conduzido em conformidade com as orientações do Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação.”
11 de agosto de 2026 - CBN