APEOESP - 81 Anos APEOESP - Logotipo
Sindicato dos Professores

FILIADO À CNTE E CUT

Banner de acesso ao Diário Oficial

Teses e Dissertação

Voltar

Seg, 15 de Junho 2026 - 19:36

Doutorado e exposição marcam celebrações do Orgulho Autista

Por: Autistas Brasil

Em abril deste ano, o pesquisador e presidente da Autistas Brasil, Guilherme de Almeida, defendeu na Unicamp uma tese sobre a participação de pessoas autistas no ensino superior público.
 
Entre os conceitos desenvolvidos no doutorado "Presença/Ausência de Pessoas Autistas no Ensino Superior Público: justiça neurocognitiva e autoria histórico-criativa como práxis emancipadora'' está o que descreve a passagem da pessoa autista de destinatária de políticas de inclusão, para protagonista na produção de conhecimento e na tomada de decisões (autoria histórico-criativa).
 
Poucas semanas depois, foi inaugurada no Museu Nacional da China, em Pequim, a exposição "O Brasil de Portinari", projeto do qual Guilherme de Almeida participa como diretor executivo. No cenário internacional das artes e da cultura, o caso é considerado incomum.
 
Levantamento realizado pela Autistas Brasil sobre a presença de pessoas com deficiência em posições de liderança em grandes instituições culturais aponta que cargos de direção e curadoria em museus de grande porte continuam concentrados em poucos países e, quando ocupados por pessoas com deficiência, estão mais frequentemente associados a deficiências físicas ou sensoriais. Registros de lideranças autistas em posições executivas de alto nível ainda são raros.
 
Segundo a organização, a direção brasileira da exposição "O Brasil de Portinari" reúne características pouco frequentes: uma liderança autista, em um dos maiores museus do mundo, representando um país do Sul Global em uma instituição de referência internacional.
 
Em sua tese, o pesquisador explica que muitas instituições avançaram na ampliação do acesso, mas ainda enfrentam desafios para garantir condições efetivas de protagonismo. Para ele, universidades e espaços culturais frequentemente recebem pessoas com deficiência como meros espectadores, mas ainda oferecem poucas oportunidades para que ocupem posições de liderança.
 
"Há uma vertigem boa em ver um conceito que a gente criou voltar para dentro da própria vida", afirma Guilherme de Almeida. "Na academia, na própria forma da tese: um autista teorizando e exercendo a autoria autista. E, na cultura, acompanhando a concretização de um projeto que ajudamos a construir no maior museu da China. Se a autoria histórico-criativa valeu para mim, pode servir de mapa para outras pessoas autistas."
 
A exposição ocorre em um contexto de desafios persistentes para a inclusão de pessoas autistas no mercado de trabalho. Dados do A.J. Drexel Autism Institute apontam que cerca de 14% dos adultos autistas possuem emprego remunerado nos Estados Unidos. No Brasil, levantamento do Instituto Autismos, divulgado em 2025, identificou que quase 30% dos adultos autistas estão desempregados ou sem renda.
 
Para especialistas e organizações da área, esses números evidenciam que a exclusão não está relacionada à qualificação profissional, mas a obstáculos estruturais que dificultam o acesso e a permanência em espaços de trabalho e liderança.
 
Entre esses obstáculos está a chamada barreira atitudinal, definida pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) como comportamentos e percepções que limitam ou impedem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições. Diferentemente das barreiras físicas, ela se manifesta em expectativas reduzidas, preconceitos e processos de seleção que restringem oportunidades antes mesmo do primeiro contato profissional.
 
"Essa barreira tem nome: é a barreira atitudinal, e talvez seja a mais difícil de superar. Diferentemente de uma escada sem rampa, ela é invisível. Está nos pressupostos, nas expectativas rebaixadas e em processos que decidem, antes mesmo da entrevista, que a pessoa autista não vai dar conta", argumenta o pesquisador.
 
Para a Autistas Brasil, a trajetória de Almeida simboliza a possibilidade de ampliar a presença de pessoas autistas em espaços de decisão, produção de conhecimento e liderança institucional.
 
A exposição na China, dirigida pelo pesquisador, e a conclusão do doutorado na Unicamp coincidem com as celebrações do Dia Nacional do Orgulho Autista, em 18 de junho, data que passa a integrar oficialmente o calendário brasileiro a partir da Lei nº 15.365/2026.
 
Diferentemente do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, a data tem como foco a valorização da neurodiversidade, do protagonismo e das contribuições das pessoas autistas à sociedade. 
 
A experiência do Doutor em Educação Guilherme de Almeida Prazeres representa justamente essa mudança de perspectiva: a passagem da inclusão como acesso para a inclusão como participação efetiva nos espaços de criação, liderança e tomada de decisão. Mais do que um caso individual, a entidade avalia que o episódio demonstra que a autoria autista pode ocupar o centro das instituições, deixando de ser exceção para se tornar uma possibilidade concreta.
 
Topo

APEOESP - Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo - Praça da República, 282 - CEP: 01045-000 - São Paulo SP - Fone: (11) 3350-6000
© Copyright APEOESP 2002/2011