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Sex, 27 de Março 2026 - 16:36

O futuro dos professores tem a sua história

Para construir um mundo melhor devemos investir na educação...

Por: Lara Chaud Palacios Marin, pesquisadora do Grupo de Pesquisa História dos Saberes Pedagógicos da Faculdade de Educação da USP

Para construir um mundo melhor devemos investir na educação. Esse enunciado pode parecer óbvio para aqueles que pensam que a construção do futuro depende da educação que damos hoje para as crianças, consideradas os sujeitos responsáveis pelo amanhã. No entanto, a humanidade nem sempre pensou assim. A ideia de ver o futuro como algo em aberto e a concepção da educação como a solução para a criação de um mundo mais promissor são aspectos típicos da modernidade.
 
O que projetamos para o amanhã? Que sujeitos queremos formar hoje para construir um futuro melhor? O que devemos ensinar às crianças para que elas atuem em um futuro planejável, porém incerto? E mais, o que os professores devem saber e como devem atuar para favorecer o desenvolvimento infantil desejado? Todas essas perguntas estavam no cerne do pensamento da Escola Nova, movimento educacional típico da modernidade, que emergiu na Europa no final do século 19. Em meio à Primeira Guerra Mundial, os educadores da época se perguntavam como transformar uma sociedade que vivia a guerra e a destruição em um mundo mais pacífico. Tais questões foram colocadas de modo transnacional, tornando-se expressivas no início do século 20 no Brasil, sobretudo a partir dos anos 1920.
 
Da mesma forma que a Escola Nova projetava a sociedade do amanhã e prescrevia a educação necessária para desenvolvê-la, os pedagogos da época também projetavam a profissão docente, afinal, para que as crianças tivessem uma boa educação, era preciso bons professores. Os escola-novistas defendiam que a função do professor deveria ser construir o futuro por meio da educação das crianças e pautavam uma formação docente amparada nos saberes científicos, sobretudo na psicologia do desenvolvimento, por acreditarem que tais saberes eram os mais verdadeiros e adequados para que os professores pudessem atuar no ensino. Os brasileiros também defendiam melhores condições de trabalho e melhores salários para os professores utilizando o mesmo argumento de sua função, afinal, se os docentes podiam promover a construção da nação e a possibilidade de um mundo pacífico no futuro, deveriam ser valorizados por isso, tanto social quanto financeiramente. Estava posto o desafio para a educação escolar da primeira metade do século 20 no Brasil.
 
Entender o que o discurso pedagógico projetou para a profissão docente em termos de sua função, de sua formação e de suas condições de trabalho foi o objetivo da tese Uma história dos futuros imaginados da profissão docente: análise do discurso pedagógico, que defendi em 7 de novembro de 2025 na Faculdade de Educação e publicada recentemente no Banco de Teses da USP. Utilizando a análise do discurso foucaultiana, a autora investiga livros de intelectuais estrangeiros e brasileiros que fundamentaram o pensamento da Escola Nova, manifestos da educação, uma revista pedagógica destinada aos professores da época, uma autobiografia de uma professora primária paulista, um estudo sociológico realizado no Brasil em 1960 sobre o que desejavam as futuras professoras da época que cursavam a formação inicial docente e os três relatórios sobre educação publicados pela Unesco, de 1972, 1996 e 2021. Diante desses materiais, a tese centraliza a sua análise no período entre 1930 e 1965 e no contexto brasileiro para entender o que o discurso pedagógico dizia sobre como deveriam ser os professores do amanhã.
 
Por meio de trechos de enunciados dos materiais investigados juntamente aos aspectos da educação da época, a autora descreve as características desse discurso típico da modernidade, mostrando como ele exerceu poder sobre como se via a função docente na sociedade, bem como sobre a prática dos professores em sala de aula e sobre as condições do trabalho docente. Ao exercitarmos o olhar histórico com a leitura da tese, percebemos as semelhanças e diferenças do discurso pedagógico de meados do século 20 com o discurso atual sobre a educação, ou seja, é possível perceber o que permanece presente no discurso atual e o que se rompeu no decorrer dos anos.
 
Sem dúvida, a vontade de futuro é algo que permanece presente no discurso pedagógico. Se, por um lado, ainda acreditamos na ideia de que a educação é um recurso fundamental para a construção de um futuro melhor e os professores devem ser valorizados justamente por promoverem essa possibilidade – o que nos dá indícios de que os tempos modernos não acabaram –, por outro, parece que esse enunciado ainda precisa ser validado e defendido, já que a educação pública e os professores vivem sob ataque.
 
Ao fim da tese, paramos para nos perguntar: qual a finalidade da educação atualmente? O que permanece e o que mudou de meados do século 20 para cá? O que projetamos para os professores do amanhã? E ainda, como os professores sentem no cotidiano os efeitos do discurso sobre a sua profissão?
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